Machado de Assis
A
CENA DO CEMITÉRIO
1894, junho.
Não mistureis alhos
com bugalhos; é o melhor conselho que posso dar às pessoas que lêem de noite na
cama. A noite passada, por infringir essa regra, tive um pesadelo horrível.
Escutai; não perdereis os cinco minutos de audiência.
Foi o caso que, como
não tinha acabado de ler os jornais de manhã, fi-lo à noite. Pouco já havia que
ler, três notícias e a cotação da praça. Notícias da manhã, lidas à noite,
produzem sempre o efeito de modas velhas, donde concluo que o melhor encanto
das gazetas está na hora em que aparecem. A cotação da praça, conquanto tivesse
a mesma feição, não a li com igual indiferença, em razão das recordações que
trazia do ano terrível (1890-91). Gastei mais tempo a lê-la e relê-la. Afinal
pus os jornais de lado, e, não sendo tarde, peguei de um livro, que acertou de
ser Shakespeare. O drama era Hamlet. A página, aberta ao acaso, era a
cena do cemitério, ato V. Não há que dizer ao livro nem à página; mas essa
mistura de poesia e cotação de praça, de gente morta e dinheiro vivo, não podia
gerar nada bom; eram alhos com bugalhos.
Sucedeu o que era de
esperar; tive um pesadelo. A princípio, não pude dormir; voltava-me de um lado
para outro, vendo as figuras de Hamlet e de Horácio, os coveiros e as caveiras,
ouvindo a balada e a conversação. A muito custo, peguei no sono. Antes não
pegasse! Sonhei que era Hamlet; trazia a mesma capa negra, as meias, o gibão e
os calções da mesma cor. Tinha a própria alma do príncipe da Dinamarca. Até aí
nada houve que me assustasse. Também não me aterrou ver, ao pé de mim, vestido
de Horácio, o meu fiel criado José. Achei natural; ele não o achou menos.
Saímos de casa para o cemitério; atravessamos uma rua que nos pareceu ser a
Primeiro de Março e entramos em um espaço que era metade cemitério, metade
sala. Nos sonhos há confusões dessas, imaginações duplas ou incompletas,
mistura de coisas opostas, dilacerações, desdobramentos inexplicáveis; mas,
enfim, como eu era Hamlet e ele Horácio, tudo aquilo devia ser cemitério. Tanto
era que ouvimos logo a um dos coveiros esta estrofe:
Era um título
novinho,
Valia mais de oitocentos;
Agora que está velhinho
Não chega a valer duzentos.
Entramos e escutamos.
Como na tragédia, deixamos que os coveiros falassem entre si, enquanto faziam a
cova de Ofélia. Mas os coveiros eram ao mesmo tempo corretores, e tratavam de
ossos e papéis. A um deles ouvia bradar que tinha trinta ações da Companhia
Promotora das Batatas Econômicas. Respondeu-lhe outro que dava cinco mil-réis
por elas. Achei pouco dinheiro e disse isto mesmo a Horácio, que me respondeu,
pela boca de José: "Meu senhor, as batatas desta companhia foram prósperas
enquanto os portadores dos títulos não as foram plantar. A economia da nobre
instituição consistia justamente em não plantar o precioso tubérculo; uma vez
que o plantassem era indício certo da decadência e da morte."
Não entendi bem; mas
os coveiros, fazendo saltar caveiras do solo, iam dizendo graças e apregoando
títulos. Falavam de bancos, do Banco Único, do Banco Eterno, do Banco dos
Bancos, e os respectivos títulos eram vendidos ou não, segundo oferecessem por
eles sete tostões ou duas patacas. Não eram bem títulos nem bem caveiras; eram
as duas coisas juntas, uma fusão de aspectos, letras com buracos de olhos,
dentes por assinaturas. Demos mais alguns passos, até que eles nos viram. Não
se admiraram; foram indo com o trabalho de cavar e vender. - Cem da Companhia
Balsâmica! - Três mil-réis. - São suas. - Vinte e cinco da Companhia Salvadora!
- Mil-réis! - Dois mil-réis - Dois mil e cem! - E duzentos! - E quinhentos! -
São suas.
Cheguei-me a um, ia a
falar-lhe, quando fui interrompido pelo próprio homem: "- Pronto Alívio!
meus senhores! Dez do Banco Pronto Alívio! Não dão nada, meus senhores? Pronto
Alívio! senhores... Quanto dão? Dois tostões? Oh! não! não! valem mais! Pronto
Alívio! Pronto Alívio!" O homem calou-se afinal, não sem ouvir de outro
coveiro que, como alívio, o banco não podia ter sido mais pronto. Faziam
trocadilhos, como os coveiros de Shakspeare. Um deles, ouvindo apregoar sete
ações do Banco Pontual, disse que tal banco foi realmente pontual até o dia em
que passou do ponto à reticência. Como espírito, não era grande coisa; daí a
chuva de tíbias que caiu em cima do autor. Foi uma cena lúgubre e alegre ao
mesmo tempo. Os coveiros riam, as caveiras riam, as árvores, torcendo-se aos
ventos da Dinamarca, pareciam torcer-se de riso, e as covas abertas riam, à
espera que fossem chorar sobre elas.
Surdiram muitas outras
caveiras ou títulos. Da Companhia Exploradora de Além-Túmulo apareceram
cinqüenta e quatro, que se venderam a dez réis. O fim desta companhia era
comprar para cada acionista um lote de trinta metros quadrados no Paraíso. Os
primeiros títulos, em março de 1891, subiram a conto de réis; mas se nada há
seguro neste mundo conhecido, pode havê-lo no incognoscível? Esta dúvida entrou
no espírito do caixa da companhia, que aproveitou a passagem de um paquete
transatlântico, para ir consultar um teólogo europeu, levando consigo tudo o
que havia mais cognoscível entre os valores. Foi um coveiro que me contou este
antecedente da companhia. Eis aqui, porém, surdiu uma voz do fundo da cova, que
estavam abrindo. Uma debênture! uma debênture!
Era já outra coisa.
Era uma debênture. Cheguei-me ao coveiro, e perguntei que era que estava
dizendo. Repetiu o nome do título. Uma debênture? - Uma debênture.
Deixe ver, amigo. E, pegando nela, como Hamlet, exclamei, cheio de melancolia:
- Alas, poor Yorick! Eu o conheci, Horácio. Era um título
magnífico. Estes buracos de olhos foram algarismos de brilhantes, safiras e
opalas. Aqui, onde foi nariz, havia um promontório de marfim velho lavrado;
eram de nácar estas faces, os dentes de ouro, as orelhas de granada e safira.
Desta boca saíam as mais sublimes promessas em estilo alevantado e nobre. Onde
estão agora as belas palavras de outro tempo? Prosa eloqüente e fecunda, onde
param os longos períodos, as frases galantes, a arte com que fazias ver a gente
cavalos soberbos com ferraduras de prata e arreios de ouro? Onde os carros de
cristal, as almofadas de cetim? Diz-me cá, Horácio.
- Meu senhor...
- Crês que uma letra
de Sócrates esteja hoje no mesmo estado que este papel?
- Seguramente.
- Assim que, uma
promessa de dívida do nobre Sócrates não será hoje mais que uma debênture
escangalhada?
- A mesma coisa.
- Até onde podemos
descer, Horácio! Uma letra de Sócrates pode vir a ter os mais tristes empregos
deste mundo; limpar os sapatos, por exemplo. Talvez ainda valha menos que esta debênture.
- Saberá Vossa
Senhoria que eu não dava nada por ela.
- Nada? Pobre
Sócrates! Mas espera, calemo-nos, aí vem um enterro.
Era o enterro de
Ofélia. Aqui o pesadelo foi-se tornando cada vez mais aflitivo. Vi os padres, o
rei e a rainha, o séqüito, o caixão. Tudo se me fez turvo e confuso. Vi a
rainha deitar flores sobre a defunta. Quando o jovem Laertes saltou dentro da
cova, saltei também; ali dentro atracamo-nos, esbofeteamo-nos. Eu suava, eu
matava, eu sangrava, eu gritava...
- Acorde, patrão!
acorde!
in A Semana - Gazeta de Notícias - 03/07/1894.
Fonte: A Semana - Machado de Assis - W. M. Jackson
Inc. - 1946
Ortografia Atualizada.