Carta a Quintino Bocaiúva
Meu amigo,
Vou
publicar as minhas duas comédias de estréia; e não quero fazê-lo sem o conselho
da tua competência.
Já
uma crítica benévola e carinhosa, em que tomaste parte, consagrou a estas duas
composições palavras de louvor e animação.
Sou
imensamente reconhecido, por tal, aos meus colegas da imprensa.
Mas
o que recebeu na cena o batismo do aplauso pode, sem inconveniente, ser
trasladado para o papel? A diferença entre os dois meios de publicação não
modifica o juízo, não altera o valor da obra?
É
para a solução destas dúvidas que recorro à tua autoridade literária.
O juízo da imprensa via
nestas duas comédias - simples tentativas de autor tímido e receoso. Se a minha
afirmação não envolve suspeitas de vaidade disfarçada e mal cabida, declaro que
nenhuma outra ambição
levo nesses trabalhos. Tenho o teatro por coisa muito séria e as minhas forças
por coisa muito insuficiente; penso que as qualidades necessárias ao autor
dramático desenvolvem-se e apuram-se com o tempo e o trabalho; cuido que é
melhor tatear para achar; é o que procurei e procuro fazer.
Caminhar
destes simples grupos de cenas - à comedia de maior alcance, onde o estudo dos
caracteres seja consciencioso e acurado, onde a observação da sociedade se case
ao conhecimento prático das condições do gênero, - eis uma ambição própria de
ânimo juvenil e que eu tenho a imodéstia de confessar.
E
tão certo estou da magnitude da conquista, que me não dissimulo o longo estádio
que há de percorrer para alcançá-la. E mais. Tão difícil me parece este gênero
literário que, sob as dificuldades aparentes, se me afigura que outras haverá,
menos superáveis e tão sutis,
que ainda as não posso ver.
Até
onde vai a ilusão dos meus desejos? Confio demasiado na minha perseverança. Eis
o que espero saber de ti.
E
dirijo-me a ti, entre outras razões, por mais duas, que me parecem excelentes:
razão de estima literária e razão de estima pessoal. Em respeito à tua modéstia, calo o que te
devo de admiração e reconhecimento.
O
que nos honra, a mim e a ti, é que a tua imparcialidade e a minha submissão
ficam salvas da mínima suspeita. Serás justo e eu dócil; terás ainda por isso o
meu reconhecimento; e eu escapo a esta terrível sentença de um escritor: "Les
amitiés qui ne résistent pas à la franchise, valent-elles un regret?"
Teu
amigo e colega,
MACHADO DE ASSIS