Amadeu Amaral

O DIALETO CAIPIRA

INTRODUÇÃO

Tivemos, até cerca de vinte e cinco a trinta anos atrás, um dialeto bem pronunciado, no território da antiga província de S. Paulo. É de todos sabido que o nosso falar caipira - bastante característico para ser notado pelos mais desprevenidos como um sistema distinto e inconfundível - dominava em absoluto a grande maioria da população e estendia a sua influência à própria minoria culta. As mesmas pessoas educadas e bem falantes não se podiam esquivar a essa influência. (1)

Foi o que criou aos paulistas, há já bastante tempo, a fama de corromperem o vernáculo com muitos e feios vícios de linguagem. Quando se tratou, no Senado do Império, de criar os cursos jurídicos no Brasil, tendo-se proposto São Paulo para sede de um deles, houve quem alegasse contra isto o linguajar dos naturais, que inconvenientemente contaminaria os futuros bacharéis, oriundos de diferentes circunscrições do país...

O processo dialetal iria longe, se as condições do meio não houvessem sofrido uma série de abalos, que partiram os fios à continuidade da sua evolução.

Ao tempo em que o célebre falar paulista reinava sem contraste sensível, o caipirismo não existia apenas na linguagem, mas em todas as manifestações da nossa vida provinciana. De algumas décadas para cá tudo entrou a transformar-se. A substituição do braço escravo pelo assalariado afastou da convivência cotidiana dos brancos grande parte da população negra, modificando assim um dos fatores da nossa diferenciação dialetal. Os genuínos caipiras, os roceiros ignorantes e atrasados, começaram também a ser postos de banda, a ser atirados à margem da vida coletiva, a ter uma interferência cada vez menor nos costumes e na organização da nova ordem de coisas. A população cresceu e mesclou-se de novos elementos. Construíram-se vias de comunicação por toda a parte, intensificou-se o comércio, os pequenos centros populosos que viviam isolados passaram a trocar entre si relações de toda a espécie, e a província entrou por sua vez em contato permanente com a civilização exterior. A instrução, limitadíssima, tomou extraordinário incremento. Era impossível que o dialeto caipira deixasse de sofrer com tão grandes alterações do meio social.

Hoje, ele acha-se acantoado em pequenas localidades que não acompanharam de perto o movimento geral do progresso e subsiste, fora daí, na boca de pessoas idosas, indelevelmente influenciadas pela antiga educação. Entretanto, certos remanescentes do seu predomínio de outrora ainda flutuam na linguagem corrente de todo o Estado, em luta com outras tendências, criadas pelas novas condições.

Essas outras tendências irão continuando, naturalmente, a obra incessante da evolução autônoma do nosso falar, que persistirá fatalmente em divergir do português peninsular, e até do português corrente nas demais regiões do país. Mas essa evolução já não será a do dialeto caipira. Este acha-se condenado a desaparecer em prazo mais ou menos breve. Legará, sem dúvida, alguma bagagem ao seu substituto, mas o processo novo se guiará por outras determinantes e por outras leis particulares.

Desapareceu quase por completo a influência do negro, cujo contato com os brancos é cada vez menor e cuja mentalidade, por seu turno, se modifica rapidamente. O caipira torna-se de dia em dia mais raro, havendo zonas inteiras do Estado, como o chamado Oeste, onde só com dificuldade se poderá encontrar um representante genuíno da espécie. A instrução e a educação, hoje muito mais difundidas e mais exigentes, vão combatendo com êxito o velho caipirismo, e já não há nada tão comum como se verem rapazes e crianças cuja linguagem divirja profundamente da dos pais analfabetos.

Por outro lado, a população estrangeira, muito numerosa, vai infiltrando as suas influências, por enquanto pouco sensíveis, mas que por força se farão notar mais ou menos remotamente. Os filhos dos italianos, dos sírios e turcos aparentemente se adaptam com muita facilidade à fonética paulista, mas na verdade trazem-lhe modificações fisiológicas imperceptíveis, que se irão aos poucos revelando em fenômenos diversos dos que até aqui se notavam.

O que pretendemos neste despretensioso trabalho (de que pedimos escusa aos componentes) é - caracterizar essa dialeto "caipira", ou, se acham melhor, esse aspecto da dialetação portuguesa em S. Paulo. Não levaremos, por isso, em conta todos os paulistismos que se nos têm deparado, mas apenas aqueles que se filiam nessa velha corrente popular.

É claro que não é esta uma tarefa simples, para ser levada a cabo com êxito por uma só pessoa, muito menos por um hóspede em glotologia. Mas é bom que se comece, e dar-nos-emos por satisfeito, se tivermos conseguido fixar duas ou três idéias e duas ou três observações aproveitáveis, neste assunto, por enquanto, quase virgem de vistas de conjunto, sob critérios objetivos. Quanto aos erros que, apesar de todo o nosso esforço, nos hajam escapado, contamos com a benevolência dos entendidos.

* * *

Fala-se muito num "dialeto brasileiro", expressão já consagrada até por autores notáveis de além-mar; entretanto, até hoje não se sabe ao certo em que consiste semelhante dialetação, cuja existência é por assim dizer evidente, mas cujos caracteres ainda não foram discriminados. Nem se poderão discriminar, enquanto não se fizerem estudos sérios, positivos, minuciosos, limitados a determinadas regiões.

O falar do Norte do pais não é o mesmo que o do Centro ou o do Sul. O de S. Paulo não é igual ao de Minas. No próprio interior deste Estado se podem distinguir sem grande esforço zonas de diferente matiz dialetal - o Litoral, o chamado "Norte", o Sul, a parte confinante com o Triângulo Mineiro.

Seria de se desejar que muitos observadores imparciais, pacientes e metódicos se dedicassem a recolher elementos em cada uma dessas regiões, limitando-se estritamente ao terreno conhecido e banindo por completo tudo quanto fosse hipotético, incerto, não verificado pessoalmente. Teríamos assim um grande número de pequenas contribuições, restritas em volume e em pretensão, mas que na sua simplicidade modesta, escorreita e séria prestariam muito maior serviço do que certos trabalhos mais ou menos vastos, que de quando em quando se nos deparam, repositórios incongruentes de fatos recolhidos a todo preço e de generalizações e filiações quase sempre apressadas.

Tais contribuições permitiriam, um dia, o exame comparativo das várias modalidades locais e regionais, ainda que só das mais salientes, e por ele a discriminação dos fenômenos comuns a todas as regiões do país, dos pertencentes a determinadas regiões, e dos privativos de uma ou outra fração territorial. Só então se saberia com segurança quais os caracteres gerais do dialeto brasileiro, ou dos dialetos brasileiros, quantos e quais os subdialetos, o grau de vitalidade, as ramificações, o domínio geográfico de cada um.

Seremos imensamente grato às pessoas que se dignarem de nos auxiliar, de acordo com as idéias que aí ficam esboçadas, no aumento e no aperfeiçoamento desta modesta tentativa. A essas recomendamos as seguintes normas a observar:

a) não recolher termos e locuções apenas referidos por outrem, mas só os que forem pessoalmente apanhados em uso, na boca de indivíduos desprevenidos;

b) indicar, sempre que for possível, se se trata de dicção pouco usada ou freqüente, e se geralmente empregada ou apenas corrente em determinado grupo social;

c) grafá-la sempre tal qual for ouvida. Por exemplo: se ouvirem pronunciar capuêra, escrever capuêra e não capoeira. Isto é essencial, e há muitíssimas coleções de vocábulos que, por não terem obedecido a este preceito, quase nenhum serviço prestam aos estudiosos, não passando, ou passando pouco de meras curiosidades;

d) se houver diferentes modos de pronunciar o mesmo vocábulo, reproduzi-los todos com a mesma fidelidade;

e) sempre que possa dar-se má interpretação à grafia adotada, explicar cumpridamente os pontos duvidosos;

f) ter especial cuidado em anotar os sons peculiares à fonética regional (como o som de r em arara, ou o som de g em gente) ; declarar como devem ser pronunciadas tais letras, no caso de que o devam ser sempre da mesma maneira, e adotar um sinal para distinguir uma pronúncia de outra, no caso de haver mais de uma (por exemplo, um ponto em cima do g quando soa aproximadamente dg, para o diferençar do que soa a moda culta; uma risca sobre o c, para significar que é explosivo, como em chave (tchave), etc.

I - FONÉTICA

1.º GENERALIDADES

1. Antes de tudo, deve notar-se que a prosódia caipira (tomando o termo prosódia numa acepção lata, que também abranja o ritmo e musicalidade da linguagem) difere essencialmente da portuguesa.

O tom geral do frasear é lento, plano e igual, sem a variedade de inflexões, de andamentos e esfumaturas que enriquece a expressão das emoções na pronunciação portuguesa.

2. Os acentos em que a voz mais demoradamente carrega, na prolação total de um grupo de palavras, não são em geral os mesmos que teria esse grupo na boca de um português; e as pausas que dividem tal grupo na linguagem corrente são aqui mais abundantes, além de distribuídas de modo diverso. Na duração das vogais igualmente difere muito o dialeto: se, proferidas pelos portugueses, as breves duram um tempo e as longas dois, pode-se dizer, comparativamente, que no falar caipira duram as primeiras dois tempos e as segundas quatro.

Este fenômeno está estreitamente ligado à lentidão da fala, ou, antes, se resolve num simples aspecto dela, pois a linguagem vagarosa, cantada, se caracteriza justamente por um estiramento mais ou menos excessivo das vogais (2),

3. Também decorre dessa mesma lentidão, como um resultado natural, o fato de que o adoçamento e elisão das vogais átonas, coisas comuns na pronunciação portuguesa, são aqui fenômenos relativamente raros. Com efeito, compreende-se bem que o português, na sua pronunciação vigorosa e rápida, torture muito mais os vocábulos, abreviando-os pelo enfraquecimento e supressão das vozes átonas internas, ligando-os uns aos outros pela absorção das átonas finais nas vogais que se lhes seguem: subrádu, p'dáçu, c'rôa, 'sp'rança, tiátru, d'hoj'em diante, um'august'assemblêia. Da mesma forma, compreende-se que o caipira paulista, no seu pausado falar, que por força há de apoiar-se mais demoradamente nas vogais, não pratique em tão larga escala essas mutações e elisões.

O caipira (como, em geral, todos os paulistas) pronuncia, em regra, claramente as vogais átonas, qualquer que seja a posição das mesmas no vocábulo: esperança, sobrado, pedaço, coroa, e recorre poucas vezes a sinalefa. Nos próprios monossílabos átonos me, te, se, de, o, que, etc., as vogais conservam o seu valor típico bem distinto, ao contrário do que sucede com os portugueses, em cuja pronunciação normal elas se ensurdeceram, assumindo tonalidades especiais.

Pode dizer-se que no dialeto não lia vogais surdas: todas soam distintamente, salvos os casos de queda ou de sinalefa. Dai provém o dizer-se que os caipiras acentuam todas as vogais, o que é falso, mas explica-se. E que não se leva em conta a duração relativa das átonas e tônicas, a que atrás nos referimos.

4. Não podemos, porém, atribuir inteiramente à influência da lentidão e pausa da fala essa melhor prolação das vogais átonas, no dialeto. Haverá também causas históricas, por ora pressentidas apenas.

O fenômeno é, naturalmente, complexo, e são complexas as suas causas; mas é impossível negar que existe pelo menos uma estreita correlação entre um e outro fato.

5. Seria, aliás, muito interessante um estudo acurado das feições especiais da prosódia caipira, com o objetivo de discriminar a parte que lhe toca na evolução dos diferentes departamentos do dialeto. Chegar-se-ia de certo a descobertas muito curiosas, até no domínio dos fatos sintáticos.

A diferenciação relativa à colocação dos pronomes oblíquos, no Brasil, deve explicar-se, em parte, pelo ritmo da fala e pelo alongamento das vogais (3), Esses pronomes, no português europeu, se antepõem ou pospõem a outras palavras, que os atraem, incorporando-os. Prosodicamente, não têm existência autônoma: são sons ou grupos de sons, destinados a adicionarem-se aos vocábulos acentuados, segundo leis naturais inconscientemente obedecidas (ênclise, próclise). Passando para o Brasil, a língua teve que submeter-se a outro ritmo, determinado por condições fisiológicas e psicológicas diversas: era o suficiente para quebrar a continuidade das leis de atração que agiam em Portugal. O alongamento das vogais, dando maior amplitude aos pronomes na pronúncia, tornando mais sensível a sua individualidade, veio acentuar, de certo, aquele efeito.

 

2.º OS FONEMAS E SUAS ALTERAÇÕES NORMAIS

6. Os fonemas do dialeto são em geral os mesmos do português, se não levarmos em conta ligeiras variantes fisiológicas, que sempre existem entre povos diversos e até entre frações de um mesmo povo; variantes essas de que, pela maior parte, só a fonética experimental poderia dar uma notação precisa. Cumpre, entretanto, observar o seguinte:

a) s post-vocálico tem sempre o mesmo valor: é uma linguo-dental ciciante, não se notando jamais as outras modalidades conhecidas entre portugueses e mesmo entre brasileiros de outras regiões; s propriamente sibilante, assobiado, e bem assim chiante, são aqui desconhecidos. Para produzir este som a língua projeta a sua ponta contra os dentes da arcada inferior e encurva-se de modo que os bordos laterais toquem os dentes da arcada superior, só deixando uma pequena abertura sob os incisivos: modo de formação perfeitamente igual ao de c em cedo. (4)

b) r inter e post-vocálico (arara, carta) possui um valor peculiar: é linguo-palatal e guturalizado. Na sua prolação, em vez de projetar a ponta contra a arcada dentária superior, movimento este que produz a modalidade portuguesa, a língua leva os bordos laterais mais ou menos até os pequenos molares da arcada superior e vira a extremidade para cima, sem tocá-la na abóbada palatal. Não há quase nenhuma vibração tremulante. Para o ouvido, este r caipira assemelha-se bastante ao r inglês post-vocálico. É, muito provavelmente, o mesmo r brando dos autóctones. Estes não possuíam o rr forte ou vibrante, sendo de notar que com o modo de produção acima descrito é impossível obter a vibração desse último fonema. (5)

c) A explosiva gutural gh tem uma tonalidade especial, sobretudo antes dos semiditongos cuja prepositiva é u, casos em que freqüentemente se vocaliza: áu-ua = água, léu-ua = légua).

d) ch e j palatais são explosivos, como ainda se conservam entre o povo em certas regiões de Portugal (6), no inglês (chief, majesty) e no italiano (ciclo, genere).

e) A consonância palatal molhada lh não existe no dialeto, como na maioria dos dialetos port. de África e Ásia, e como em vários dialetos castelhanos da América. (7)

7. Os fenômenos de diferenciação fonética que caracterizam o dial. resumem-se desta forma:

VOGAIS

As TÔNICAS, em regra, não sofrem alteração. O único fato importante a assinalar com relação a estas é que, quando seguidas de ciciante (s ou z), no final dos vocábulos, se ditongam pela geração de um i: rapáiz, méis, péis, nóis, láiz. (8)

8. Quanto às ÁTONAS:

Na sílaba postônica dos vocábulos graves, conservam o seu valor típico. Não se operou aqui a permuta de e final por i, que se observa em outras regiões do país (oquêli, êsti), como não se operou a de o por u (povu, dígu), fenômeno este que se manifestou em Portugal, ao que parece, a partir do séc. XVIII.

Nos vocábulos esdrúxulos, a tendência é para suprimir a vogal da penúltima sílaba e mesmo toda esta, fazendo grave o vocábulo (ridico = ridículo, legite = legítimo, cosca = cócega, musga = música. Exceção: lático < látego (curiosa reversão à forma originária; cp. cósca < coç'ca < cócica), sumítico, nófico, etc.

9. Nas sílabas pretônicas, alteram-se mais, como se verá das seguintes notas:

e - a) Inicial, aparece mudado em i nasal em inzame < exame, inguá < igual, inzempro < exemplo, inleição < eleição.

A nasalação de e inicial seguido de x é fenômeno observado em tempos afastados da língua: enxame < examen, enxada < exada, enxuito < exsuctum. Enxempro encontra-se nos escritores mais antigos. Do mesmo modo inliçon (eleição).

b) Medial, muda-se freqüentemente em i (tisôra, Tiodoro, piqueno), sobretudo se há outro i na sílaba seguinte: pirigo, dilicado, minino, atrivido, intiligente, pidi(r), midi(r), pitiço (assimilação regressiva).

Na pronúncia normal portuguesa tem-se dado, em tais casos, justamente o fenômeno contrário (dissimilação), embora nem sempre se substitua i por e na escrita: menino, preguiça, vezinho, menistro. O caipira ainda conserva, como remanescente do que aprendeu dos portugueses, a esse respeito, o nome próprio Vergílio, que pronuncia com e. Também diz Fermino.

Este fonema perdura intacto nos derivados e nas formas flexionadas, quando tônico nas palavras originárias: pretura, pretinho, pretejado, pedrenio, medroso.

10. o - Medial, muda-se muitas vezes em u: tabuleta, cuzinha, dumingo, sobretudo nos infinitivos dos verbos em ir, que o têm na sílaba imediatamente anterior à tônica: ingulí(r), buli(r), tussi(r), surti(r). A possuir corresponde a forma dialetal pissuí(r), que também existe em galego. (9)

Nos infinitivos dos verbos em ar e er, conserva-se: cobrá(r), cortá(r), broqueá(r), intortá(r), sofrê(r), podê(r).

Conserva-se também nos derivados e nas formas flexionadas, quando tônico nas palavras originárias: locura, boquêra, porcada, mortinho, rodêro.

Conserva-se geralmente, aberto, nos diminutivos de nomes que o têm assim: pòrtinha, pòtinho, còbrinho (ao contrário do que se dá em outros pontos do país; notadamente em Minas, onde estes diminutivos têm o fechado).

11. en (en, em) - Inicial, muda-se em in: imprego, incurtá(r), insino, imborná(l), insi(lh)á(r).

Em inteiro e indireitar, ao contrário, depara-se às vezes o i mudado em e - entêro, endereitá(r), provavelmente por assimilação regressiva. Aliás, as formas enteiro, enteiramente, endereitar, encontram-se em documentos portugueses anteriores à reação erudita.

12. õ (on, om) - Medial, muda-se em u, em lumbi(lh)o, amuntá(r), cume(r), cumpadre, cumigo, cunversa, cumeçá(r) e em geral nos vocábulos cuja sílaba inicial e cõ.

GRUPOS VOCÁLICOS

(acentuados ou não)

13. ai (dit.) - Antes da palatal x, reduz-se à prepositiva: baxo, baxêro, faxa, caxa, paxão.

Dois exemplos de mudança em éi: téipa, réiva.

14. ei (dit.) - Reduz-se a e quando seguido de r, x ou j: isquêro, arquêre, chêro, pêxe, dêxe, quêjo, bêjo, berada.

Nos vocábulos em que é seguido de o ou a, como ceia, cheio, veia, também aparece às vezes representado por ê: chêo, vêa, cêa. Cp. a evolução destas palavras no português: cheio < chêo < cheno < *cheno < plenu(m); veia < vêa < vena etc.

15. ou e oi (dits.) - a) Acentuado ou não, contrai-se o primeiro em ô: poco, tôro, locura, rôpa.

Em Portugal, bem como no falar da gente culta no Brasil, há notório sincretismo no uso dos ditongos ou e oi. Para o caipira tal sincretismo não existe: os vocábulos onde esses ditongos aparecem são pronunciados sempre de um só modo. Assim, lavôra, ôro, estôro, côro, côve, lôco, bassôra, tôca, frôxo, trôxa, e nunca lavoira, oiro, etc.; por outro lado, dois, noite, coisa, poiso, foice, toicinho, oitão, afoito, biscoito, moita, e nunca dous, noute, etc. Se há formas sincréticas, são raríssimas.

A causa desta distinção é puramente fonética: note-se, nos exemplos acima, que há ô diante dos sons r, v, k e x, e oi diante de s = ç, z etc.

b) Nas formas verbais em que o acento tônico recai em ou, este às vezes se contrai em ó: róba, estóre, afróxa. A trouxe corresponde truxe; a soube, sube.

16. ein (em) - Final de vocábulo, reduz-se a e grave; viaje, virge, home, êles corre.

Parece-nos inútil acentuar que na palavra portuguesa viagem e em outras de idêntica terminação existe um verdadeiro ditongo nasal grafado em (viagein, virgein, etc.) Da mesma forma existe o ditongo nasal õu nas palavras bom, som, etc. (bõu, sõu).

17. õu (om) - a) Na preposição com, reduz-se à vogal nasal un, quando se segue a essa prep. palavra que comece por consoante: cum você, cum quem vô, cumsigo, (com-sigo). Quando há eclipse, reduz-se a o grave: co ele, cos diabo(s).

b) Nas palavras bom, tom e som muda-se em ão: bão, tão, são.

18. ío (hiato) - Final de vocábulo, ditonga-se sempre em iu: paviu, tiu, riu.

CONSOANTES

19. b e v - Muda-se às vezes uma na outra, dando lugar a várias formas sincréticas:

burbuia e vevúia - borbulha

bassôra e vassora - vassoura

berruga e verruga - verruga

biête e viête - bilhete

cabortêro e cavortero - cavorteiro

jabuticaba e jabuticava - jaboticaba

Piracicaba e Pricicava - Piracicaba

mangaba e mangava (fruta) - mangaba

bespa e vespa - vespa

bagaço e vagaço - bagaço

bamo e vamo - vamos

20. d - Cai, quase sempre, na sílaba final das formas verbais em ando, ando, indo: andano = andando, veno = vendo, caíno, pôno, e também no advérbio quando, às vezes,

21. gh - Quando compõe sílaba com os semiditongos ua, uá, ue, ué, uê, ul, como em guarda, água, tigüera, sagüi, torna-se quase imperceptível, vocalizando-se freqüentemente em u. Neste caso, esse u ditonga-se com a vogal anterior, e o segundo u continua a formar semiditongo com a vogal seguinte: áu-ua, tiu-uéra, sáu-ui.

22. l - a) Em final de sílaba, muda-se em r: quarquér, papér, mér, arma.

Na locução tal qual, cai apenas o segundo l, porque o primeiro se tornou intervocálico: talequá. E ainda digna de nota a locução adverbial malemá (grafada como se pronuncia), que quer dizer "passavelmente", "sofrivelmente", "assim assim". (Terá provindo de mal e mal, ou de mal a mal, ou ainda de "mal, mal"? Fazer um serviço mal e má (l): passavelmente, antes mal que bem; passar mal e má de saúde: sofrivelmente).

As palavras terminadas em aí, el, il.. freqüentemente aparecem apocopadas: má, só, jorná = mal, sol, jornal. Não inferir daí que houve queda de l. Esse l mudou-se primeiro em r, e depois caiu este fonema, de acordo com uma das leis mais rígidas, e mais facilmente verificáveis, da fonética dialetal.

É de notar-se ainda que a pronúncia em questão (má, só) é mais comum entre os negros, que, submetidos, em geral, ao império das mesmas leis, quando no mesmo meio, não deixam entretanto de diferir dos caboclos e brancos em mais de um ponto.

b) Quando subjuntivo de um grupo, igualmente se muda em r: craro, cumpreto, cramô(r), frô(r).

Esta troca é um dos vícios de pronúncia mais radicados no falar dos paulistas, sendo mesmo freqüente entre muitos dos que se acham, por educação ou posição social, menos em contato com o povo rude.

(Cp. 6-b).

23. r - a) Cai, quando final de palavra: andá, muié, esquecê, subi, vapô, Artú.

Conserva-se, entretanto, geralmente, em alguns monossílabos acentuados, tendo de certo influído nisso a posição proclítica habitual: dôr, cór, côr, par. Conserva-se também no monossíl. átono por, pela mesma razão, assim como, raras vezes, em palavras de mais de uma sílaba: amor, suôr. Nos verbos, ainda que monossílabos, cai sempre, provavelmente pela influência niveladora da analogia: vê, í, pô.

b) Esta consonância é de extrema mobilidade no seio dos vocábulos, dando lugar a metáteses e hipérteses freqüentíssimas. (26, i-j).

24. s - Cai, quando final de palavra paro ou proparoxítona: arfére (alferes), pire (pires), bamo (vamos), imo (imos).

Desaparece também nos oxítonos, quando é sinal de pluralidade: mau, bambu, avo.

Conserva-se nos adjetivos determinativos e nos pronomes, ainda que graves, o que se explica, em parte, pela posição proclítica habitual: duas casa, minhas fiia, arguas pessoa, aqueles minino, eles, elas. A prova é que, quando não está em próclise, freqüentemente se submete à regra: aquelas são as minha, estas são sua. Em parte, porém, essa conservação se deve à necessidade de manter um sinal de pluralidade. Voltaremos oportunamente a este ponto, que é, talvez, mais do domínio dos fenômenos psicológicos na morfologia, do que de ordem fonética.

25. lh - Vocaliza-se em i: espaiado, maio, muié, fiio = espalhado, malho, mulher, filho.

Cp. o que se dá com o l molhado em Cuba, na Argentina (caje = calle, cabajo = caballo) e na França, onde desde o século XVIII começou a acentuar-se a tendência para a vocalização deste fonema (batáie, Chantií = bataille, Chantilly).

3.º MODIFICAÇÕES ISOLADAS

26. Além das alterações francamente normais, que ficaram registradas, há toda uma multidão de modificações acidentais, de que daremos alguns exemplos:

a) abrandamento: guspe = cuspo, musga = música.

E de notar que nos esdrúxulos cócega, náfego e látego se dá o contrário: cócica (e coçca), náfico, lático.

b) assimilação - progressiva. Carlo = Carlos, regressiva. birro -bilro; açcançá = alcançar; digêro = ligeiro (g palatal explosivo = dg).

c) Aférese: (a)parece, (i)magina, (ar)rependeu, (ar)ranca, (a)lambique, (al)gibêra.

d) Síncope: pês(se)co = pêssego, mus(i)ga = música, isp(i)rito, ca(s)tiçar, Jeró(ni)mo, ridíc(ul)o.

e) Apócope: Ligite(mo).

f) Prótese: alembrá = lembrar, avoá = voar, arripiti = repetir.

g) Epêntese: rec-u-luta, Ing-a-laterra, g-a-rampo.

h) Epítese: paletor.

i) Metátese: perciso, pertende, purcissão, partelêra, agardecê, aquerditá(r).

j) Hipértese: agordão (algodão), cardaço, chacoalhá(r), largato.

27. Devem mencionar-se ainda as formas proclíticas:

de senhor - nho, seô, seu, siô, sô;

de senhora - nhá, seá, sea, sia, sa;

de minha - mea e mha;

de sua - sa

de não - num. (10)

II. - LEXICOLOGIA

1. O vocabulário do dialeto é, naturalmente, bastante restrito, de acordo com a simplicidade de vida e de espírito, e portanto com as exíguas necessidades de expressão dos que o falam. Esse vocabulário é formado, em parte:

a) de elementos oriundos do português usado pelo primitivo colonizador, muitos dos quais se arcaízaram na língua culta;

b) de termos provenientes das línguas indígenas;

c) de vocábulos importados de outras línguas, por via indireta;

d) de vocábulos formados no próprio seio do dialeto.

ELEMENTOS DO PORTUGUÊS DO SÉCULO XVI

2. Em verdade, estes não se limitam ao léxico. Todo o dialeto está impregnado deles, desde a fonética até a sintaxe. A sua discriminação através dos vários departamentos do dialeto constituiria sem duvida um dos mais curiosos estudos a que se pode prestar a nossa linguagem rústica, e não só pelo interesse puramente lingüístico, senão também pelo clarão que lançaria sobre questões atinentes à formação do espírito do nosso povo.

Sobre a importância lingüística, não é necessário insistir, pois ela, por assim dizer, se impõe por definição. Basta notar o seguinte: uma vez reconhecido que o fundo do dialeto representa um estado atrasado do português, e que sobre esse fundo se vieram sucessivamente entretecendo os produtos de uma evolução divergente, o seu acurado exame pode auxiliar a explicação de certos fatos ainda mal elucidados da fonologia, da morfologia e da sintaxe histórica da língua. Por exemplo: a pronunciação clara de e e o átonos finais comprova o fato de que o ensurdecimento vozes só começou em época relativamente próxima, pois de outro modo não se compreenderia porque o caipira analfabeto pronuncia lado, verdade, quando os portugueses pronunciam ladu, verdad'.

3. São em grande número, relativamente à extensão do vocabulário dialetal, as formas esquecidas ou desusadas na língua. Lendo-se certos documentos vernáculos dos fins do século XV e de princípios e meiados do século XVI, fica-se impressionado pelo ar de semelhança da respectiva linguagem com a dos nossos roceiros e com a linguagem tradicional dos paulistas de "boa família", que não é senão o mesmo dialeto um pouco mais polido.

Na carta de Pero Vaz Caminha abundam formas vocabulares e modismos envelhecidos na língua, mas ainda bem vivos no falar caipira: inorância, parecer (por aparecer) mêa (adj. meia), u"a, trosquia, imos (vamos), despois, reinar (brincar), preposito, vasios (região da ilharga), luitar, desposto, alevantar, "volvemo nos lá bem noute", "veemo nos nas naus', "lançou o na praya".

4. Os elementos arcaicos da língua, conservados no vocabulário dialetal, dividem-se, naturalmente, em arcaísmos de forma, de significação, e de forma e significação (11) Exemplos:

ARCAÍSMOS DE FORMA

acupá(r) inorá(r)
agardecê(r) livér
argua (u nasal). ........... lua (u nasal)
avaluá(r) malino
Bertolomeu manteúdo
correição ...................... ninhua (u nasal)
cresçudo premêro
dereito repuná(r)
eigreja reposta
ermão saluço
escuitá(r) somana
estâmego sajeitá(r)
fermoso sojigá(r)
fruita sovertê(r)
ímburuiá(r) súpito
intrúido teúdo
inxúito trusquia

ARCAÍSMOS DE SENTIDO

aério .............................. perplexo

dona .............................. senhora

função ........................... baile, folguedo

praça .............................povoado

reiná(r) ......................... fazer travessuras

salvar ........................... saudar

ARCAÍSMOS DE FORMA E SENTIDO

arreminado ................................. indócil
contia ......................................... quantidade qualquer
cuca (arc. côco, côca) escotêro .. ente fantástico

escotêro ...................................... o que viaja sem bagagem
imitante (como particípio)
modinha ..................................... cançoneta
punir ........................................... defender, "pugnar"
sino-samão ................................. signo de Salomão.

5. Abundam igualmente as locuções arcaicas ou, pelo menos, de sabor arcaico bem pronunciado:

a modo que
a pôs, a pôs de ........................... a pós de

antes tempo (sem prep.) ............ antes da hora, antecipadamente
a par de ..................................... junto, ao lado

de verdade ................................ de véras
de primeiro ............................... outrora
em antes de .............................. antes de
no mais .................................... não mais
neste meio ............................... entrementes

6. É natural que, diante de certas formas apontadas como arcaicas (ermão, somana), haja dúvida se de fato se trata de arcaísmo, se de mera coincidência. Num ou noutro caso, esta última hipótese será talvez a mais aceitável: por exemplo, se o nosso povo pronuncia craro, frôr, não se deve ter pressa em ligar essas formas, historicamente, às idênticas que se encontram em velhos documentos da língua; pois que tais formas, antes de mais nada, obedecem a uma lei da fonética local, a permutação de l subjuntivo por r. Mas, ermão, somana, etc., só se podem explicar como formas recebidas dos colonizadores, pois, além de se encontrarem em escritos antigos, se confirmam por outros fatos análogos da língua, ao passo que mal se acomodam às regras que atuam na alteração dialetal dos vocábulos.

ELEMENTOS INDÍGENAS

7. Das línguas dos autóctones, ou, melhor, do tupi, recebeu o dialeto grande quantidade de termos.

A nossa população primitiva, durante muito tempo, antes da introdução do negro, era, pela maior parte, composta de indígenas e de mestiços de indígenas. Da extensão que teve a língua dos aborígenes no falar dos primitivos dois ou três séculos da nossa existência, dão testemunho flagrante, além de muitos vocábulos que entraram nos usos sintáticos correntes, os não menos numerosos topônimos, que se encontram nas vizinhanças dos centros de população mais antigos.

8. Quanto a isto sobressai a capital com seus arredores, onde abundam os nomes tupis, os quais vão escasseando pelo interior, nas zonas mais novas, onde, ainda assim, os que se nos deparam são em boa parte artificialmente compostos. Só no município de São Paulo e nos que com ele confinam se contam por dezenas os rios, riachos, montes, bairros, fazendas e povoados com denominações tupis tradicionais (12):

Açu

Caguassu

Choruróca

Guaracau

Ajuá

Cabussu

Cocaia

Guarapiranga

Aricanduva

Caçacuéra

Cupecê

Guarará

Anhangabaú

Caçandoca

Ebirapuéra

Guaratim

Baquiruvu-guassu

Caçapava

Gopaúva

Guaraú

Bopi

Cangùera

Guacuri

Guavirutuba

Botucuara

Canindé

Guaiaúna

Imbiras

Buçucaba

Caraguatá

Guaió

Itaberaba

Butantan

Carapicuiba

Guapira

Itacuaquecetuba

Itacuéra

Jaguaré

Nhanguassú

Tacuaxiara

Itaguassu

Jaraguá

Pacaembú

Tamanduitei

Itaim

Jaraú

Pari

Tamburé

Itaparicuéra

Juquiri

Piquiri

Tatuapé

Itaperoá

Jurubatuba

Pirajussara

Tremembé

Itapicirica

Mandaqui

Pirituba

Tucuruvi

Itararé

Mandi

Pirucaia

Uberaba

Ipiranga

Mhoi

Prati

Utinga

Jaceguava ou

Mooca

Poá

Votussununga

Jaceguai

Murumbi

Quitaúna

Voturantim

Jacuné

Mutinga

Saracura

 

9. Os nomes de animais contam-se por centenas. Uma parte dos mais conhecidos:

acará

guará

maracanã

sucuri

anu

guariba

mucuím

suindara

araponga

guaripu

mumbuca

surubi

arapuá

guaru-guaru

mussurana

sussuarana

arara

gùirá

mutuca

tabarana

bacurau

içá

mutum

tamanduá

baitaca

inhambu

nhaçanã

tambijuá

biguá

irara

paca

tambiú

biriba

itobi

pacu

tanajura

borá

jacaré

pairiru

tangará

caçununga

jacu

piaba

taperá

cambucu

jaburu

piapara

tarira

caninana

jacutinga

penambi

taçuíra

capivara

jaguatirica

piracambucu

tatêto

cará-cará

jaó

piracanjuba

tatorana

chabó

japu

piraju

tatu

coró

japuíra

pirambóia

tietê

cuati

jararaca

piranha

tiriva

cuiú-cuiú

jateí

sabiá

tovaca

cumbé

jaú

sabiá-cica

tuím

cupim

jiquitiranabóia

sabiá-poca

tuiuva

curiango

jundiá

sabiá-una

tuvuna

curimbatá

jurutí

sanhaço

uru

curió

lambari

sanharão

urubu

curruíra

mamangava

saracura

urutau

curuquerê

mandaçáia

sará-sará

urutu

cutía

mandaguarí

saúva

xororó

gambá

mandi

siriêma

xupim

gaturamo

mandorová

siri

 

giboia

manduri

socó

 

10. Não são menos abundantes os nomes indígenas de vegetais, de que daremos algumas dezenas, à guisa de exemplificação:

abacate

capixingui

ipê

piri

abacaxi

capitava

jaborandi

pitanga

andaguassú

caraguatá

jabuticava

piúva

araçá

carnaúba

jacarandá

samambaia

aruêra

caróba

jacaré

sagùi

araribá

caruru

jantá

sapé

araticum

catanduva

jaracatiá

sapuva

açatunga

cipó

jarivá

sumaúma

bacaba

crindiuva

jataí

taióva

baguassu

grumixama

jiquitaia

taiúva

bracuí

guabiroba

jiquitibá

tacuara

brejaúva

guãibè

jovéva

tacuari

buriti

guandu

juá

tacuaritinga

bucuva

guapê

jurema

tacuarussu

butiá

guapocarí

macaúba

timbó

cabiúna

guareróva

manacá

timbori

cabriúva

guanxuma

mandióca

tiririca

caiapiá

guaraiúva

mangava

trapoeraba

cajuru

guaratã

maracajá

tucum

cambuci

guatambu

maçaranduva

urucu

cambuí

imbaúva

nhapindá

urucurana

canjarana

imbúia

orindiúva

uvá

canxim

indaiá

perova

 

capim

ingá

pipóca

 

11. Nomes de diferentes fenômenos, acidentes, produtos da natureza, doenças, etc,:

beréva

cupim

piracema

tabatinga

bossoróca

joçá

pororóca

taguá

cambuquira

manipuêra

quiréra

tijuco

capão

nambiuvu

sambiquira

tupururuca

capuêra

pacuéra

sapiróca

 

catapóra

pichuá

sororóca

 

catinga

picumã

suã

 

12. Nomes de utensílios, aparelhos, objetos de uso, alimentos, etc:

arapuca

caxerenguengue

jacuba

muquéca

arataca

chuã

jiqui

mipeva

arimbá

jacá

juquiá

pamonha

pamonã

pindacuêma

samburá

tacuru

pari

pipóca

sapicuá

tipiti

paçoca

piruá

saracuã

 

patuá

pito

solímão

 

peléta

pussaguá

sururuca

 

1 3. Nomes referentes a usos, costumes, abusões, etc.:

bitatá

canhembora

caruru

piracuara

buava

capuava

guaiú

saci

caiçara

cateretê

mumbava

tapéra

caipira

catira

perequê

tiguéra

caipora

coivara

piá

 

14. Adjetivos e substantivos usados como tais:

aíva

jururú

pepuíra

punga

chimbeva

macaia

pereréca

sarambé

ité

nambi

piricica

turuna

jaguané

napéva

piririca

 

javevó

pangaré

piúva

 

jissi

pararaca

pururuca

 

15. Todos os vocábulos acima citados são, com uma ou outra excepção apenas, de origem tupi.

Esta língua, como diz o sr. Teodoro Sampaio no seu precioso livrinho "O Tupi na Geografia Nacional", vicejou próspera e forte em quase todo o país, sobretudo em S. Paulo e algumas outras capitanias. Aqui, segundo aquele escritor, a gente do campo falava a língua geral até fins do século XVIII. Todos a sabiam, ou para se exprimir, ou para entender. Era a língua das bandeiras; era a de muitos dos próprios portugueses aqui domiciliados.

É o que explica essa absoluta predominância do tupi, entre as línguas brasílicas, na toponímia local, na nomenclatura de animais e de plantas e em geral no vocabulário de procedência indígena.

É possível, entretanto, como dissemos, que haja excepções. Mesmo sem outros elementos de suspeita, pode-se duvidar que todos os vocábulos vulgarmente apresentados como tupis de fato sejam dessa língua, ou mesmo de qualquer outra língua brasílica, considerando-se apenas as dificuldades de ordem geral que embaraçam todo trabalho etimológico em idiomas não escritos, cujas formas variam tanto no tempo e no espaço, e se acham tão sujeitas, em bocas estranhas, a profundas corrupções voluntárias e involuntárias. (13)

16. Muitos dos vocábulos de procedência indígena flutuam numa grande variabilidade de formas, principalmente certos nomes de animais e de plantas: açatonga, açatunga, guaçatonga, guaxatonga; caraguatá, crauatá, cravatá; tarira, taraira, traíra; maitaca, baitaca; corimbatá, curumbatá, curimatá. Na terminação vogal + b + vogal, geralmente usada pela gente culta, o caipira prefere quase sempre v a b: jabuticava, mangava, beréva, tiriva, taióva, saúva.

A origem destas incertezas está em que a nossa fonética nem sempre possui sons exatamente correspondentes aos indígenas. O u consoante (w) foi desde cedo interpretado de vários modos: por uns como v, por outros como b, por outros ainda como gh: é o que explica as variações caraguatá, carauatá, cravatá, - capivara, capibara, capiguara, - piaçava, pioçaba, piaçágua (cf. Piaçagùéra), etc.

A pronúncia popular, nestes casos, é a melhor. O povo, direta e inconscientemente influenciado pela fonética indígena, conserva ainda sinais dessa influência na própria incapacidade para bem apanhar o som distinto de v em vocábulos portugueses: daí pronúncias, que às vezes se ouvem, como guapô por vapor, etc. (14)

ELEMENTOS DE VÁRIA PROCEDÊNCIA

17. A receptividade do dialeto em relação a termos de origem estranha é muito limitada, porque as necessidades de expressão, para o caipira, raramente vão além dos recursos ordinários.

O caipira genuíno vive hoje, com pouca diferença, como vivia há duzentos anos, com os mesmos hábitos, os mesmos costumes, o mesmo fundo de idéias. Daí o conservar teimosamente tantos arcaísmos - e também tantos termos especiais que, vivos embora no português europeu, são às vezes completamente desconhecidos, aqui, da gente da cidade, tais como chêda, tamoeiro, cambota, náfego, etc. Daí, também, o não precisar tanto de termos novos, que, pela maior parte, ou designam coisas a que vive alheio, ou idéias abstratas que não atinge.

18. Dos vocábulos estrangeiros modernamente introduzidos na língua e que são de uso corrente no falar das pessoas mais ou menos cultas, ele só tem aceito alguns, poucos, relativos a objetos de uso comum, produtos de artes domésticas, etc.: paletó (que desterrou por completo o vernáculo casaco), croché, cachiné, revórve, etc.

19. Existem entretanto no dialeto muitos vocábulos (além dos brasílicos e parte dos africanos) que não lhe vieram por intermédio da língua. Destas aquisições, umas pertencem ao dialeto geral do Brasil, outras resultaram da própria atividade paulista. Exemplos:

Do guarani, do quichúa (15):

chacra

guaiava

iapa

purungo

garõa

guaiaca

pampa

 

Do castelhano:

amarilho

cola

lunanco

porvadêra

aragano

empalizado

parêia

rengo

caraquento

enfrenar

pareiêro(16)

retovado

cincha

entreverar

pitiço

rinha

cochonilho

lonca

perrengue

 

Dos dialetos ibero-sul-americanos e do vocabulário sul-rio-grandense:

bagual

guasca

pala

ponche

gaúcho

matungo

pangaré

retaco

Quase todos esses termos nos vieram por intermédio do Rio Grande do Sul, com o qual mantiveram outrora os paulistas intensas relações de comércio, sobretudo de comércio de animais, sendo freqüentíssimas as viagens de tropeiros de uma para outra província. Dessas relações guardam ainda os vocabulários e os costumes populares de lá e de cá numerosíssimos elementos comuns, não só de origem estrangeira, como de elaboração própria.

20. A maior parte dos vocábulos africanos existentes no dialeto caipira não são aquisições próprias. A colaboração do negro, por mais estranho que o pareça, limitou-se à fonética; o que dele nos resta no vocabulário rústico são termos correntes no país inteiro e até em Portugal:

angu

cacunda

macóta

quingengue

banguela

carimbo

malungo

quisília

batuque

caximbo

mandinga

samba

binga

cuxilo

missanga

sanzala

cachaça

lundu

quilombo

urucungo

21. Há um certo número de provincianismos brasileiros de origem africana, que, recebidos pela maior parte do Norte, aqui se introduziram no falar das cidades e na linguagem literária, mas não penetraram no dialeto: tais, por exemplo: cangerê, cacimba, candomblê, giló, munguzá, quingombô.

FORMAÇÕES PRÓPRIAS

22. Com os elementos que vieram do português, do tupi e de outras línguas, formaram-se no Brasil numerosos vocábulos, principalmente por derivação, - já no seio do povo paulista, que através do seu movimento de expansão pelo território nacional os levou a longínquas regiões, já em outras terras, de onde foram trazidos.

Encontra-se no falar caipira de S. Paulo, e na própria linguagem das pessoas educadas, toda uma multidão de neologismos derivados, alguns muito expressivos e já indispensáveis àqueles mesmos que procuram fugir à influência do regionalismo:

VERBOS (17)

abombar

chifrar

frautear

moquear

aforar

chatear

fuchicar

passarinhar

ami(lh)ar

coivarar

fuçar

pealar

asperejar

covejar

gramar

pererecar

assuntar

cutucar

intijucar

pescocear

barrear

desbarrancar

inquisilar

petecar

bestar

descabeçar

imbirotar

pinicar

bobear

descanhotar

impaçocar

piriricar

bolear

descangicar

impipocar

pitar

buçalar

descoivarar

lerdear

prosear

capengar

desguaritar

mamparrear

pururucar

campear

desmunhecar

mantear

sapecar

capinar

facerar

miquear

tapear

catingar

fachear

moçar

trotear(18)

cavortear

festar

molear

 

SUBSTANTIVOS

areão

buraquêra

caipirada

corredêra

bobage

burrage

caipirismo

dada

botina

cabeção

caiporismo

derrame

barrigada

carpa

capina

eguada

bestêra

carpição

capinzar

gaùchismo

bodocada

cavadêra

capuerão

gentama

boquera

cabocrada

chifrada

gentarada

bugrêro

caiçarada

chifradêra

jabuticavêra

lapiana

mulequêra

rodada

tijucada

moçada

ossama

rodêro

tijuquêra

moçarada

perovêra

sapezar

varrição

micage

piazada

sitiante

 

mulecada

poetage

soberbia

 

mulecage

porquêra

taquarar

 

ADJETIVOS

abobado

espeloteado

filante

praciano

abombado

impacador

franquêro

saberete

atimboado

impipocado

mamóte

supitoso

bernento

inredêro

micagêro

 

catinguento

facêro

passarínhêro

 

catingudo

 

peitudo

 

23. São em menor número as palavras formadas por composição, e estas, na maior parte, pela justaposição de elementos com a partícula subordinante de:

dôr-d'-óio (olhos)

fruita-de-lobo

sangue-de-tatu

áua-de-açucre (água de açúcar)

sangue-de-boi

cordão-de-frade

rabo-de-tatu

mer-de-pau (mel)

arma-de-gato (alma)

pedra-de-fogo.

orêia-de-onça (orelha)

baba-de-moça

pente-de-mico

abobra-d'-áua

unha-de-gato

côro-de-arrasto (couro)

língua-de-vaca

pau-de-espinho

cachorro-do-mato

barriga-de-áua

gato-do-mato

tacuara-do-reino

pá-de-muleque

pimenta-do-reino

ôio-de-cabra

canário-do-reino

barba-de-bóde

quejo-do-reino

Por justaposição direta e por aglutinação:

quatro-pau(s)

tatu-canastra

quebra-cangaia

arranha-gato

cinco-nerva(s)

méde-léua(léguas)

mata-sete

passa-treis

mandioca-braba

vira-mundo

tira-prosa

quatróio(olhos)

abobra-minina

chora-minino

tira-acisma

minhócussu

Por prefixação:

entreparar descoivarar desaguaxado descoivarado

e outros vocábulos já citados quando tratamos da derivação.

24. Muitas palavras há, entre as portuguesas, que têm sofrido aqui mudanças mais ou menos profundas de sentido. Exemplos tomados entre os casos de mais pronunciada diferenciação:

ATORAR - partir à pressa, resolutamente; fugir.
CANA - cana de açúcar.
CAIERA - grande fogueira festiva.
CANDIERO - guia de carro de bois.
CAPADO, subst. - porco castrado.
DESMORALIZAR, v. trans. - fazer perder
o entusiasmo, o brio.
DESPOTISMO - enormidade.
INTIMAR - ostentar. Daí intimação e intimador.
FAMÍLIA (famia) - no plural, filhos.
FRUITA - jaboticaba (usada sem determinação, tem este único sentido).
FUMO - tabaco.
FINTAR - faltar dolosamente a uma dívida.
IMUNDÍCIA - caça miúda.
LOJA - armazém de fazendas a retalho.
MANGAÇÃO - vadiação.
MANCAR - vadiar
PIÃO - domador.
PINGA - aguardente de cana.
PILINTRA - casquilho.
PATIFE - medroso; sensível.
PANDÓRGA - desmazelado, moleirão.
PINHO - viola.
RANCHO - cabana de campo.
SCISMA - desconfiança; presunção.
SÍTIO - propriedade agrícola menor que a fazenda.
TABACO - rapé.

 

 

25. Outras palavras, conservando o seu sentido, ou sentidos, têm adquirido novos:

ÁGUAS - direção das fibras da madeira.
BABADO - folho de vestido de mulher.
DÔBRE - canto (de pássaro), repique (de sino).
DOBRAR - cantar (o pássaro), repicar (o sino).
ESTACA - cabide.
LADRÃO - desvio de uma regueira ou açude; broto de cafeeiro.
SANGRADÔ(URO) - ponto do pescoço do boi, ou outro animal, onde se embebe a faca ao matá-lo.
SÁIA - fronde que oculta o tronco desde o solo.
VIRGEM - poste de moenda.
SOLDADO - certo pássaro.
TOMBADÔ(URO) - lugar onde tombam as águas de um salto.
VAPÔ(R) - locomotiva

III. - MORFOLOGIA

FORMAÇÃO DE VOCÁBULOS

1. Como já mostrámos ("Lexicologia", "Formações próprias") o dialeto tem dado provas de grande vitalidade, na formação de numerosos substantivos e adjetivos, quer por composição, quer por derivação. De ambos os processos fornecemos muitos exemplos.

Registamos agora, aqui, um curiosíssimo processo de reduplicação verbal, corrente não só entre os caipiras de S. Paulo, mas em todo o país, ou grande parte dele.

Para exprimir ação muito repetida, usa-se uma perífrase formada com o auxiliar vir, ir, estar, andar, seguido de infinitivo e gerúndio de outro verbo. Assim: vinha pulá(r)-pulando, ia caí(r)-caindo, estava ou andava chorá(r)-chorando.

A explicação deste fenômeno alguns têm querido ir buscá-la ao tupi, "refugium" de tantos que se cansam a procurar as razões de fatos obscuros e complicados da linguagem nacional. Não nos parece que seja preciso apelar para as tendências reduplicativas daquela língua, em primeiro lugar porque. essas tendências são universais; em segundo lugar, porque se trata de palavras bem portuguesas, ainda que combinadas de maneira um tanto estranha; em terceiro lugar, porque há na nossa própria língua elementos para uma explicação, tão boa ou melhor do que a indiática.

É sabido que, no tempo dos autores quinhentistas, o uso do gerúndio nas perífrases (como anda cantando), era muito mais vulgar do que hoje. Atualmente, em Portugal, o povo prefere, quase sempre, a construção com infinitivo (anda a cantar). Assim, a concorrência decisiva entre os dois processos se pronunciou justamente após a descoberta do Brasil. A particularidade em questão é talvez legado genuíno dessa época de luta, no qual se reúnem a modalidade mais freqüente outrora, importada pelos primeiros povoadores, e aquela que depois veio a predominar. O nosso povo, - inculto, em grande parte produto de mestiçagem recente, aprendendo a custo o mecanismo da língua, - diante dos dois processos concorrentes, não atinou, de certo, com as razões por que se preferia ora um, ora outro, e acabou por combiná-los. Depois, como um efeito, - que não como causa da reduplicação, - os verbos assim combinados sofreram uma pequena evolução sematológica no sentido da intensificação do seu valor iterativo. Assim, temos, em esquema:

 

a virar

 

Port. - Vinha

a virá(r)

 

 

ou

(a) virá(r) virando

Dial. - Vinha

virando

 

 

virando

 

Corrobora esta hipótese o fato de que o nosso caipira, usando a todo o momento de perífrases com gerúndio de acordo com a velha língua, só muitíssimo raramente empregará, isolada, a forma popular portuguesa de hoje, - infinitivo com prep. Isto confirma que esta forma lhe terá causado estranheza desde cedo, originando-se daí a confusão. (19)

2. Várias formações teratológicas já foram apontadas e ainda o serão adiante, neste capítulo (Flexões de número). Queremos, aqui, deixar apenas registrados os seguintes processos de que ainda não tratamos:

a) A ETIMOLOGIA POPULAR tem sido fonte de numerosas formas vocabulares novas: de "guapê", voc. de origem tupi, fez-se aguapé, por se ver nele um composto de água e ; de "caa-puan", mato redondo, ilha de mato, fez-se capão; de "caa-puan-era", capoeira; de cobrêlo, cobreiro (cobra suf. eiro); de torrão, terrão, etc.

b) Também a DERIVAÇÃO REGRESSIVA dá origem a outros termos: assim, de paixão, se fez paixa, por se tomar aquela forma como um aumentativo; de satisfação, por idêntico motivo, se tirou sastifa, com hipértese de s.

GÊNERO

3. O adjetivo e o particípio passado deixam, freqüentemente, de sofrer a flexão genérica, sobretudo se não aparecem contíguos aos substantivos: essas coisarada bunito, as criança távum quéto, as criação ficarum pestiado.

NÚMERO

4. Já dissemos algo sobre o som de s-z no final dos vocábs. (I, 24). Vamos resumir agora tudo o que se dá com esse som em tal situação.

Se bem que se trate aqui de flexões, é impossível separar o que se passa com o s final, tomado como sinal de pluralidade, do que sucede com ele em outras circunstâncias; e dificílimo se torna reconhecer, em tais fatos, até aonde vão e onde cessam a ação puramente fisiológica, do domínio da fonética, e a ação analógica, do domínio das formas gramaticais. Porisso faremos aqui uma exposição geral dos fatos relativos ao s final:

a) Nos VOCÁBULOS ÁTONOS, conserva-se: os, as, nos (contração e pronome), nas. Aliás, há pronunciada tendência para tornar tônicos esses vocábulos; pela ditongação: ois, ais, etc. A conjunção mas tornou-se mais.

b) Nos OXÍTONOS, conserva-se, - salvo quando mero sinal de pluralidade: crúiz, retróis, nóis (nós), nuz (nóz), juiz, ingrêis, vêiz, (vez), dois, trêis, déiz, fáiz, fiz, diz, páiz (paz), pois.

Como sinal de pluralidade, desaparece: os pau, os nó, os ermão, os papé, as frô(r), os urubú. Excetuam-se os determinativos uns, arguns, seus, meus (sendo que estes dois últimos, quando isolados, perdem o s: estes carru são seu', esses não são os meu'). Há hesitação em alguns vocábulos, como péis ao lado de pé'. Réis conserva-se, por se ter perdido a noção de pluralidade (isto não vale nem um réis) ; semelhantemente, pasteis, pernís, cóis.

c) Nos vocábulos PARO e PROPAROXÍTONOS, desaparece: um arfére, os arfére; o pire, os pire; dois home; os cavalo, os lático; nóis fizémo, vamo, saímo.

Quando o s pluralizador vem precedido de vogal a que se apoia, desaparece também esta: os ingrêis (ingleses), as páiz (pazes), às vêiz (vezes), as côr (cores).

Excetuam-se os determinativos, que conservam o s: u"as, argu"as, certos, muitos, estes, duas, suas, minhas, etc. assim como o pronome eles, elas. Quando pronominados, porém, os determinat